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A febre dos suplementos

A febre dos suplementos

Que atire o primeiro pezinho de alface aquele que, diante da despensa vazia ou depois de um dia atribulado no trabalho, nunca se rendeu a uma lasanha congelada, do tipo que fica pronta em cinco minutos.

Os pratos rápidos e industrializados são realmente uma opção tentadora para quem vive nas grandes metrópoles e está preso a um estilo de vida em que os intervalos para comer bem e praticar outros hábitos saudáveis vão ficando cada vez mais escassos. O problema é que, comendo a tal lasanha dia sim, outro também, terminamos o mês não apenas com alguns quilinhos extras, mas com um déficit importante de nutrientes, entre eles, vitaminas e minerais que são essenciais para o bom funcionamento do organismo.

Vitamina A

O que ela faz: desempenha papel essencial na visão, no crescimento e desenvolvimento dos ossos e no fortalecimento da imunidade. Também apresenta uma boa ação antioxidante.

A falta: pode acarretar dificuldade de visão noturna, graves lesões oculares e, em casos agudos, cegueira permanente. Um consumo muito baixo dessa vitamina pode aumentar também a possibilidade de contrair doenças, principalmente infecções.

O excesso: "Podem surgir sintomas como pele seca, fissuras nos lábios, dores nos ossos, tonturas, queda de cabelos, cãibras, lesões de fígado, além de cansaço", alerta a nutricionista Glauce Carvalho.

Onde encontrar: gema de ovo, cenoura, abóbora e manga

Quando faltam vitaminas

"Em tese, é perfeitamente possível obter todos os nutrientes de que precisamos da alimentação, desde que sejamos disciplinados o suficiente para seguir uma dieta rigorosamente balanceada. Além disso, teremos que contar com a capacidade do corpo de absorver bem todos os nutrientes ingeridos, para zerar todas as nossas necessidades. Só que, na prática clínica, essa não é a realidade da maioria", atesta o médico ortomolecular e cardiologista Edmar Santos. "Para garantir uma boa ingestão de vitaminas e minerais, é fundamental consumir muitas frutas, folhas e legumes, além de carboidratos integrais. Porém, atualmente, o consumo desses alimentos vem caindo muito", complementa a nutricionista Ana Maria Martins, diretora da Nutricius Nutrição Esportiva e Qualidade de Vida (SP).

Vitamina C

O que ela faz: é responsável pela síntese de colágeno, além de participar da produção dos hormônios adrenais, da carnitina e de alguns neurotransmissores. Também ficou bastante conhecida por seu poder de neutralizar os temidos radicais livres.

A falta: a deficiência prolongada pode causar o escorbuto, cujos sintomas são sangramento das gengivas e a inflamação das articulações.

O excesso: a elevada ingestão de vitamina C pode prejudicar a formação de colágeno.

Onde encontrar: frutas cítricas, como laranja, acerola, limão, maracujá e morango

A consequência de tanta negligência não tarda a aparecer: um cansaço sem razão de ser, queda acentuada de cabelos, unhas fracas, entre tantos outros sinais da carência. "Os problemas que decorrem da falta de vitaminas e minerais podem provocar desde sintomas leves a comprometimentos mais graves.

É comum aparecerem, por exemplo, complicações dermatológicas, neurológicas, problemas relacionados à imunidade, perdas ósseas importantes e anemias. Mas o quadro pode variar muito, dependendo do tipo de nutriente que está em baixa no organismo", explica o endocrinologista Alfredo Halpern, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP).

Cromo

O que ela faz: potencializa a função da insulina. "E, como a insulina é um dos principais hormônios anabólicos, esse mineral tem sido bastante usado por atletas que desejam aumentar a massa muscular", diz Fernanda Granja. O composto também é reconhecido por ajudar a reduzir as taxas de LDL.

A falta: a principal consequência da carência desse mineral é a diminuição da tolerância à glicose, predispondo a quadros de diabetes tipo 2.

O excesso: cansaço, perda de apetite, náuseas, dores de cabeça, alergias, alterações urinárias e até hemorragias.

Onde encontrar: levedo de cerveja, ovos, frango, banana e gérmen de trigo

E é nesse momento que entram em cena os tão populares suplementos alimentares. "Eles estão muito bem indicados quando a alimentação do paciente não é capaz de suprir as necessidades individuais ou se a deficiência vitamínica já foi diagnosticada clínica ou laboratorialmente", garante a nutricionista Glauce Lamoglie de Carvalho, do Instituto do Coração (InCor) do Hospital das Clínicas de São Paulo. Em geral, crianças, gestantes, lactantes e idosos apresentam maior suscetibilidade a apresentar deficiências de vitaminas e minerais. "Há momentos em que a alimentação não é o bastante e, assim, o uso de suplementos é benéfico e recomendado pela American Dietetic Association (ADA), para que as necessidades nutricionais do indivíduo possam ser atendidas e para prevenir complicações secundárias", diz Glauce. Assim, é comum que os médicos receitem vitamina B12 para os vegetarianos, que não consomem qualquer produto de origem animal, polivitamínicos e poliminerais para pessoas que seguem um plano alimentar muito restrito e prolongado para a perda de peso ou que apresentam redução da absorção ou aumento da excreção de algum micronutriente, como nos casos daqueles que se submeteram à cirurgia bariátrica ou possuem Doença de Crohn. Além disso, o ácido fólico para gestantes, a vitamina D para os que não consomem leite e derivados e não se expõem ao sol e o cálcio para quem não tolera a lactose também são amplamente prescritos.

Magnésio

O que ela faz: participa de várias reações enzimáticas, anabólicas e catabólicas (em que ocorre liberação de energia) do organismo, influenciando o metabolismo. Previne cefaleias, cãibras, dores musculares e estresse. Ajuda também na absorção do cálcio, permitindo a manutenção da saúde dos ossos e dentes.

A falta: na falta do mineral, podem aparecer sintomas como formigamento, tremor, espasmo muscular, náuseas e vômitos. Em casos mais graves, o risco é danificar tecidos cardiovasculares, renais e neuromusculares.

O excesso: atrapalha a absorção e o consequente aproveitamento do cálcio pelo organismo. Também pode baixar a pressão e ocasionar problemas respiratórios.

Onde encontrar: semente de abóbora, abacate, beterraba, farelo de aveia e arroz integral

Polivitamínicos: pode ou não pode?

Veja o que dizem alguns especialistas ouvidos pela VivaSaúde sobre o consumo regular de cápsulas que combinam diversas vitaminas essenciais ao bom funcionamento orgânico.

Sim

"Os polivitamínicos podem ser benéficos, desde que indicados para uma pessoa que realmente apresente deficiência, alguém que não tem uma alimentação variada e equilibrada. Só não vale o uso indiscriminado, como também não recomendamos que seja feito no caso das vitaminas e dos minerais de forma isolada."
Mariana Del Bosco, nutricionista da ABESO

Às vezes

"Acho que é possível prescrever polivitamínicos para casos específicos, depois de realizar exames e de colher o relato clínico, de acordo com os sintomas do paciente. Mas prefiro usar os manipulados aos suplementos que compramos prontos. Quando mandamos fazer um medicamento, conseguimos reunir só o que o paciente precisa e em doses mais apropriadas para o tipo de deficiência que ele apresenta.

Ainda assim, o acompanhamento do médico ou nutricionista, durante todo o tratamento, é fundamental."
Ana Maria Martins, nutricionista da Nutricius

Não

"Alguns estudos estão sendo elaborados para verificar se a suplementação vitamínica é eficiente tanto para indivíduos que possuem alguma deficiência como para indivíduos normais. Entretanto, os resultados dessas pesquisas não estão sendo nada animadores: a suplementação de vitaminas e minerais parece não promover nenhuma melhora fisiológica no caso dos indivíduos que não apresentam enfermidade prévia. Um estudo recente realizado com 13 mil adultos franceses, por exemplo, não conseguiu provar que o consumo de vitaminas e minerais reduz a incidência de câncer e doença isquêmica cardiovascular em indivíduos saudáveis. Já o Instituto Nacional de Saúde Norte-americano também tentou avaliar a eficácia e segurança dos suplementos vitamínicos e de minerais como prevenção primária para o câncer e outras doenças crônicas. Porém os autores concluíram que os dados foram insuficientes para provar os benefícios da suplementação."

Glauce Lamoglie de Carvalho, nutricionista do InCor

Consuma na dose certa

Os suplementos só passam a oferecer um risco real quando são usados de forma indiscriminada, sem o acompanhamento de um médico ou nutricionista. Isso porque, ao consumir algo de que o corpo não precisa, corremos o risco de acumular esses nutrientes em nosso organismo. E nem todo o excesso é excretado pela urina. "O grande perigo são as vitaminas lipossolúveis, que acabam ficando armazenadas nos nossos órgãos, sobrecarregando-os. Estamos falando das vitaminas A, D, E e K", alerta a nutricionista Claudia M. Santos, da Associação Brasileira de Nutrição.

Para outra especialista, a nutricionista Mariana Del Bosco, ligada à Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (ABESO), o consumo de minerais e de vitaminas hidrossolúveis, como é o caso da vitamina C, sem prescrição médica, também inspira cuidados. "Tudo o que ingerimos além das nossas necessidades nos traz problemas. Para se ter uma ideia, nossa necessidade de vitamina C é de aproximadamente 500 mg por dia. Se consumimos uma quantidade diária que fica muito acima disso, certamente acabaremos afetando o equilíbrio do organismo, atrapalhando na absorção de outros nutrientes, por exemplo. Isso porque os diversos nutrientes que consumimos interagem entre si", explica.

Betacaroteno

O que ela faz: é considerado um importante antioxidante, capaz de retardar o envelhecimento precoce, além de ser essencial na manutenção da visão, da pele e do sistema imune.

A falta: a deficiência pode acarretar em problemas de visão e de pele.

O excesso: quando consumido em altas quantidades, pode se acumular nos tecidos e ocasionar queda de cabelo, fragilidade das unhas e dores de cabeça. Atenção às gestantes, pois o excesso é capaz de provocar má-formação fetal.

Onde encontrar: vegetais amarelos e laranja, como cenoura, beterraba, mamão, manga e batata doce

Para entender esse raciocínio, basta imaginar o corpo como uma máquina programada para processar tudo o que recebe na forma de alimentação. O problema é que ele demanda energia e usa substâncias específicas para quebrar as moléculas que compõem cada alimento, de forma que possam ser aproveitadas pelo organismo, nas suas mais diversas funções. O caso é que os "operários" envolvidos nessa atividade, ao se atracarem com uma quantidade descomunal de vitamina C - ou de qualquer outra vitamina ou mineral -, obrigatoriamente terão de abrir mão de outros compromissos importantes que estavam programados dentro daquele horário de trabalho, só para dar conta da "emergência".

Cálcio

O que ela faz: é parte constituinte do osso e, portanto, sua ingestão é fundamental para manter ossos e dentes saudáveis. "O cálcio também regula a ação de vários hormônios, é responsável pela contração muscular e pela ação dos neurotransmissores. Como se não bastasse, participa do processo de coagulação sanguínea", lembra Fernanda Granja.

A falta: quando não há cálcio circulante, o organismo retira o que precisa dos ossos - que funcionam como verdadeiros reservatórios desse nutriente - provocando a osteoporose.

O excesso: o excesso de cálcio provoca dores nas articulações, formação de pedra nos rins e até insufi ciência renal.

Onde encontrar: leite, queijos, iogurte, sardinha em conserva e couve

Interação com outros remédios

"Eu frequentemente prescrevo vitaminas e minerais aos meus pacientes, até mesmo em doses mais altas, quando necessário. Porém costumo limitar o tempo de uso desses suplementos para não correr o risco de desequilibrar o funcionamento do organismo, que precisará ´gastar´ determinados elementos para processar outros. No caso da suplementação com vitamina C, por exemplo, sabemos que, para incorporar o nutriente ao organismo, o corpo mobilizará substâncias chamadas de flavonoides. Então, se a vitamina C for usada por um tempo prolongado, e em quantidades altas, corre-se o risco de comprometer o ´estoque´ de flavonoides e, nessas condições, a vitamina C cessará de ser absorvida.

Nesse caso, mesmo que a pessoa continue suplementando, apresentará deficiência desse nutriente", explica o clínico geral Alexandre Feldman.

Atenção! suplementos alimentares também interagem com outros tipos de medicamentos e podem influenciar no tratamento de doenças crônicas. Consulte seu médico antes de tomá-los.

Vitaminas do Complexo B

O que elas fazem: ajudam a manter a saúde dos nervos, da pele, dos olhos, dos cabelos, do fígado e da boca. Mantêm a tonicidade muscular do sistema gastrointestinal e atuam no metabolismo energético. "Estudos recentes vêm mostrando que essas vitaminas também podem trazer benefícios aos pacientes com quadros de depressão e ansiedade", diz Fernanda Granja.

A falta: a defi ciência crônica pode acarretar problemas neurológicos (psicose), dermatites, anemia e elevados níveis de homocisteína no sangue (indicador de risco cardiovascular).

O excesso: podem ocorrer quadros de diarreia e intoxicações neurológicas, com sintomas como formigamentos nas mãos.

Onde encontrar: aveia, arroz integral, centeio, brócolis e rúcula

A nutricionista Camila Próspero, especialista em fisiologia do exercício, dá outros exemplos de possíveis interações que podem causar efeitos adversos no momento da absorção, afetando o metabolismo dos nutrientes. "Quando é feita a suplementação de cálcio e o medicamento é tomado próximo do horário das refeições, por desinformação do paciente, aumentam os riscos de anemia, já que o cálcio atrapalha a absorção do ferro.

A suplementação inadequada com ferro também pode bloquear o transporte e a distribuição do zinco no organismo", afirma.

Ferro

O que ele faz: o mineral é essencial para a formação da hemoglobina no sangue, uma proteína cuja função é transportar oxigênio para o corpo todo.

A falta: pode provocar anemia ferropriva.

Os sintomas são fraqueza, palidez, tontura, irritação, cansaço, falta de ar e falta de apetite devido ao comprometimento de transporte de oxigênio aos tecidos. A carência pode desequilibrar o sistema imunológico.

O excesso:

aumenta a quantidade de radicais livres no organismo, acelerando o processo de envelhecimento e causando danos ao DNA. Também pode levar a alterações no tamanho do fígado, desenvolvimento de diabetes e complicações cardíacas fatais.
onde encontrar: fígado, carnes, feijão, lentilha e gema de ovo

Para piorar, os suplementos vitamínicos e de minerais também interagem com outros tipos de medicamentos e podem influenciar no tratamento de doenças crônicas. "Voltando ao exemplo da vitamina C: ela melhora a absorção de drogas ácidas, como a aspirina. Por outro lado, reduz a biodisponibilidade de algumas drogas básicas, como as anfetaminas. Além disso, a suplementação contínua com vitamina C pode interferir nos resultados de glicose sanguínea, dificultando o controle da glicemia pelos diabéticos", finaliza Camila.