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Estudo patrocinado pela indústria oculta relação do açúcar com a doença cardíaca

SÃO FRANCISCO, CALIFÓRNIA - A indústria do açúcar pagou e se comprometeu diretamente na elaboração de uma influente revisão da literatura publicada pelo periódico New England Journal of Medicine em 1967, minimizando a relação entre o consumo de açúcar na dieta e a doença coronariana, enquanto responsabilizava a ingestão de gordura e colesterol, de acordo com um relatório publicado em 12 de setembro de 2016 no periódico JAMA Internal Medicine.

O financiamento da indústria do açúcar, bem como suas outras participações não foram divulgados no artigo publicado em 1967, que teve forte influência nas recomendações nutricionais referentes ao açúcar nas décadas seguintes, observa a nova análise feita por Cristin E. Kearns, odontologista da University of Califórnia, São Francisco, e colaboradores.

A revisão da literatura feita há quase 50 anos serviu de instrumento para o lobby da indústria e provavelmente influenciou as primeiras diretrizes alimentares da década de 1980, disse Cristin para o Medscape. O artigo colocou o colesterol da dieta em foco e retirou a ingestão de açúcar do rol dos fatores de risco de doenças cardíacas, disse ela; se os dados tivessem sido apresentados de modo adequado, as recomendações teriam sido de reduzir a ingestão tanto de gordura quanto de açúcar, e não apenas da gordura saturada.

"Esta foi a mensagem que as orientações repetiram à exaustão durante décadas... que é com a gordura que devemos realmente nos preocupar", disse ela. "A conversa sobre o açúcar foi deixada de lado". A Dra. Cristin está com o Philip R Lee Institute for Health Policy Studies and Department of Orofacial Sciences da sua instituição.

O que está claro, ela e seus colegas registram, é que atualmente "a indústria do açúcar, liderada pela Sugar Association, associação comercial da indústria da sacarose, com sede em Washington, nega veementemente que exista alguma relação entre o consumo do açúcar refinado e o risco de doença coronariana".

O grupo analisou documentos internos da Sugar Research Foundation, a precursora da Sugar Association, disponibilizados nas bibliotecas universitárias e em outros locais acessíveis ao público. Eles também revisaram relatos e declarações históricas realizadas nos primeiros debates sobre os efeitos do açúcar na saúde. De acordo com esses documentos, informa o grupo, a Sugar Research Foundation definiu o objetivo das revisões, contribuiu com artigos para a inclusão no periódico, e recebeu versões preliminares dos artigos.

Cristin  e colegas informam ter encontrado registros de que a Sugar Research Foundation pagou dois pesquisadores em nutrição, David Mark Hegsted e Robert McGandy (Harvard School of Public Health, em Boston), para fazer a revisão da literatura; o montante pago totalizou o equivalente a quase 50.000 dólares norte-americanos em 2016.

Consta entre as provas de sua ingerência, escrevem os autores, a correspondência de 30 de julho de 1965 de John Hickson, vice-presidente da Sugar Research Foundation, para Hegsted. Nesta correspondência Hickson reforça o objetivo da Sugar Research Foundation ao financiar a revisão: "Nosso interesse particular diz respeito à parte da nutrição sobre a qual há alegações de que os carboidratos em forma de sacarose sobrecarregam o metabolismo, o que até então era atribuído a anomalias do metabolismo da gordura. Eu ficaria decepcionado se esta informação ficasse diluída na torrente da análise e da interpretação global".

Hegsted, afirma o artigo atual, respondeu: "Temos ciência do seu interesse particular nos carboidratos e faremos o melhor possível para encobrir esta questão". 

Cristin e colaboradores reconhecem que "não há comprovação direta que a indústria do açúcar tenha redigido ou modificado o manuscrito do NEJM" e que os indícios de que este setor tenha influenciado suas conclusões são circunstanciais.

O NEJM exigiu que os autores divulgassem todos os seus potenciais conflitos de interesse desde 1984, informa o grupo. "Ainda não está claro se as atuais políticas de conflitos de interesse têm condições de fazer frente aos interesses econômicos da indústria."

A Sugar Association respondeu ao relatório de Cristin e colaboradores em 12 de setembro de 2016 com um comunicado: "Reconhecemos que a Sugar Research Foundation deveria ter tido maior transparência em todas as suas atividades de pesquisa; no entanto, quando os estudos em questão foram publicados, a revelação das fontes de financiamento e os padrões de transparência não seguiam as mesmas normas de hoje. Além disso, é um desafio para nós  comentar eventos que supostamente ocorreram há 50 anos com base em documentos que nunca vimos. Nós questionamos as reiteradas tentativas desta autora de reformular fatos históricos para alinhar convenientemente ao atual discurso contra o açúcar, particularmente quando as últimas décadas da pesquisa concluíram que o açúcar não desempenha um papel isolado na doença cardíaca".

Flagrante?

Convidado a comentar o relatório de Cristin, Marion Nestle (New York University, NY) observa que, tipicamente, quando a indústria financia estudos sobre nutrição, a divulgação de conflitos de interesse afirma que o patrocinador não teve nenhuma participação na elaboração, execução, interpretação, redação ou publicação do estudo e "sem um flagrante é difícil provar o contrário".

"Cristin e colaboradores informaram ter encontrado o flagrante", escreve ela. "Eles têm revelado evidências eloquentes de que uma associação de comércio de açúcar não só pagou, como também elaborou e influenciou a pesquisa com o intuito de isentar o açúcar de seu papel de importante fator de risco de doença coronariana".

Ela disse que a análise revela que a revisão financiada pela indústria alcançou uma conclusão prenunciada: "Os pesquisadores sabiam o que o financiador esperava e produziram isso. Não sabemos se o fizeram deliberada ou inconscientemente, ou por acreditarem piamente que a gordura saturada era a maior ameaça. Mas não é assim que se trabalha em ciência".

Marion diz que esses resultados não devem ser vistos como história antiga e que a influência da indústria continua até hoje na indústria de alimentos. Ela destaca que em 2015 o New York Times obteve acesso a e-mails que revelaram as relações da Coca-Cola com pesquisadores cujos estudos eram patrocinados pela empresa para a realização de pesquisas visando minorar os efeitos das bebidas adoçadas na obesidade.

As descobertas de Cristin e seus colaboradores são "terríveis", segundo o Dr. James J DiNicolantonio (Saint Luke's Mid America Heart Institute, Kansas City). Ele disse ao Medscape que, embora as descobertas revelem "provavelmente as mais antigas evidências que temos de que isto vem acontecendo", os conflitos de interesse da indústria do açúcar subsistem até hoje.

Algumas meta-análises têm favorecido estudos de curto prazo avaliando os efeitos do açúcar, disse ele, mas como as pessoas têm consumido grandes quantidades de açúcar há muito tempo, esses estudos de curto prazo não vão mostrar prejuízos. "Se você observar os estudos que de fato restringem o açúcar, de modo a limitar a ingestão a apenas 5% das calorias, irá observar uma redução de 50% dos casos de pré-diabetes e diabetes. Nós sabemos disso desde o início de 1980, mas a orientações nutricionais durante esse período afirmavam explicitamente que o açúcar não causa diabetes", apesar das evidências em contrário.

"Basicamente, as orientações nutricionais estavam mentindo para nós", disse o Dr. DiNicolantonio.

Quando a revisão do NEJM foi feita, Mark Hegsted era um dos maiores cientistas em nutrição do país, observou ele. "Se alguém com tanta influência afirma que o açúcar não é prejudicial, muita gente vai acreditar, pelo menos até os anos 90, quando começamos  a exigir revisões sistemáticas e meta-análises".

Dadas as evidências reveladas, disse o Dr. DiNicolantonio, o NEJM deve recolher o artigo original. "Estes autores foram literalmente pagos... não foi informado que foram pagos diretamente para redigir este artigo", mas o que escreveram foi "claramente influenciado por seus patrocinadores", disse ele.

Este estudo foi subsidiado pela UCSF Philip R Lee Institute for Health Policy Studies; recebeu doações de Hellmann Family Fund to the UCSF Center for Tobacco Control Research and Education; UCSF School of Dentistry Department of Orofacial Sciences and Global Oral Health Program; National Institute of Dental and Craniofacial Research; e do National Cancer Institute.  Os autores informam não possuir conflitos de interesses relevantes ao tema. O Dr. Di Nicolantonio informa ser autor de um livro que ainda será publicado sobre o açúcar na dieta e na política, escrever e revisar artigos para periódicos médicos, e participar de conselhos editoriais de vários periódicos médicos, incluindo o International Journal of Clinical Pharmacology & Toxicology, CIP Journal of Cardiology e Progress in Cardiovascular Diseases. Marion Nestle informa que o seu salário da New York University subsidia suas pesquisas, a preparação dos manuscritos e seu website. Informa receber também royalties de livros e honorários e viagens para realizar palestras sobre temas de sua especialidade.

 Fonte: Medscape